que ousadia é
poetizar sobre o tudo
sobretudo
quando o poeta
está só de cueca
inspirado no livro "Breves Cantares de Nós Dois", de Filipe Couto.


Katherine – Há, há, há. Os Thompsom estavam ótimos com suas máscaras de cortinas venezianas.
Tom – E o que dizer dos Makintyre? Sempre tão bem humorados.
Katherine – Ano passado usaram máscaras de abelhas albinas.
Tom – E eu achava que eram tigres de bengala. Há, há, há.
Katherine – Há, há, há. Imagine só você que os Campbell mandaram bordar a fios de ouro as máscaras que usaram este ano.
Tom – Os Campbell sempre tão soberbos. Acabam caindo na vulgaridade.
Katherine – Concordo plenissimamente.
Tom – Ai, ai. Foi divertido. Tivemos um ótimo tempo.
Katherine – Otimíssimo. Ai, ai...
Silêncio. Eles mudam o tom.
Tom – Fora aquele casal estraga prazeres. Que vergonha nos fez passar.
Katherine – Nem me fale. Quando vi duas máscaras idênticas às nossas meu coração quis saltar pela boca.
Tom – Uma indelicadeza só.
Katherine – Onde já se viu? Freqüentamos o baile de máscara dos Dale há mais de vinte anos e nunca tal impropério havia nos acontecido.
Tom – Fomos alvo do desprezo de toda a festa.
Katherine – Com razão. Aquele outro casalzinho nos ridicularizou perante todos. Os Clarkson, veja você, fizeram um comentário maldosérrimo a respeito de nossa originalidade.
Tom – Sempre os Clarkson. Ainda não aprenderam que em boca fechada não entra mosca.
Katherine – O fato é: passamos vergonha esta noite. Amanhã telefonarei para a Senhora Dale exigindo explicações sobre este mal entendido.
Tom – Eu nunca vi isso. Confirmamos nossa presença com semanas de antecedência e deixamos registrada na lista do organizador a máscara que iríamos usar.
Katherine – E eles sempre nos garantiram que a lista de máscaras servia para que nenhum casal tivesse máscaras idênticas.
Tom – Estou louco para saber quem é essa gentinha. Nunca os tinha visto no baile dos Dale antes.
Katherine – Faremos com que eles sejam limados de qualquer lista de qualquer evento social em New River.
Tom – Eles aprenderão uma bela de uma lição.
Katherine – Eles terão o que merecem.
Tom – Amanhã, quando chegarmos em casa, resolveremos esse impasse. Essa história dos Dale fazerem festas na casa de campo da família sempre nos obriga a dormir num desses motéis pela estrada.
Katherine – A sorte é que este é de boa qualidade.
Tom – O bom é que temos a noite inteira sem as crianças para fazermos o que quisermos.
Katherine – Você sabe que, com essa história toda, eu perdi meu bom humor? E com o bom humor, foi-se também minha libido.
Tom – Não ligue pra isso, querida. Acabaremos com a vida destes impostores.
Katherine – Você tem razão, Hartley. Vamos tirar essas máscaras e ir pra cama.
Tom – O que você disse?
Katherine – Vamos tirar essas máscaras e ir pra cama.
Tom – Não. O que você disse antes disso?
Katherine – Eu disse: vamos pra cama, Hartley
Tom – Hartley?
Katherine – Sim, Hartley Junior. Não é assim que você gosta que eu lhe chame na intimidade?
Tom – Não. Eu gosto que você me chame de Tom, que é o meu nome, Melinda.
Katherine – Melinda? Mas meu nome é Katherine.
Climão.
Tom – Oh, não, Melinda. Digo, Katherine. Acho que uma tragédia se abateu sobre nós.
Katherine – Nós... Nós trocamos de pares!
Tom – Com o casal que estava usando a mesma máscara.
Katherine – Como pudemos?
Tom – Não sei. Eu poderia jurar que você era Melinda.
Katherine – E eu apostaria com a morte que você era o meu Tom.
Silêncio.
Katherine – Você não sabe a cara da sua mulher?
Tom – Claro que sei. Mas como você pode perceber, todos estávamos de máscaras.
Katherine – Mas e a voz, o cheiro...
Tom – Sim, claro que sei. Mas ela é tão parecida com você que eu acab... E você, falas de mim, mas não és capaz de reconhecer o cheiro de teu esposo.
Katherine – Eu perdi o olfato.
Tom – Oh, Deus. Que fato triste.
Katherine – Pra falar a verdade, não foi tão triste assim. Eu fiz uma operação pra tirar uma pedra no rim que me deixou essa seqüela. Mas não fez muita diferença, eu sempre tive uma rinite aguda que me bloqueava os cheiros.
Tom – O quê? Eu digo esta situação toda. É muito triste.
Katherine – Ah, sim. Tristíssima!!
Tom – Quer dizer então que a minha pequena Melinda está... com o seu marido...
Katherine – E o meu precioso Hartley está com a sua pequena Melinda...
Os dois – Filha da Puta!
Os dois – Epa!! Olha como você fala do meu...
Silêncio. Eles estão muito tensos.
Tom – (pegando um cigarro) Você tem isqueiro?
Katherine – Claro. (quebrando o gelo) Olha, você pode relaxar que o meu marido sabe muito bem a cara da mulher dele.
Tom – E se eles ainda estiverem com as máscaras?
Katherine – O olfato do Tom é perfeito. Ele é o único da casa que não sofre de rinite aguda.
Tom – E você pode ficar tranqüila que a minha mulher reconhece num piscar de olhos o maridinho dela. Diferente de você.
Katherine – Não sei, não. Se ela for igual ao maridinho, daqui a pouco está na cama com um desconhecido.
Tom – E este desconhecido será o teu esposo, minha senhora.
Katherine – Olha lá como você fala do meu marido. Espere só até eu ligar para os Dale e contar que você me trouxe para um motel e que o meu marido foi pra cam...
Tom – Espera. Você não pode espalhar uma coisa dessas. O que os Dale vão pensar de nós?
Katherine – E os Makyntire?
Tom – E quanto aos Thompsom?
Katherine – E os Clarkson, aqueles futriqueiros?
Tom – O que me diz dos York?
Katherine – E os Campbell?
Tom – Já imaginou se os Griffith ficam sabendo?
Tom – Meu deus!! E os Pereira??
Katherine – Você tem razão. Um desastre desses não pode cair na boca da alta sociedade de New River.
Tom – Temos de pensar em algo.
Katherine – Acabo de lembrar que eu e Hartley viríamos a este mesmo motel depois que a festa acabasse. Ele deve estar por aqui.
Tom – Claro! Eu e Melinda já havíamos planejado pernoitar aqui há semanas. Ela não pode estar em outro lugar.
Katherine – Então eles sabem do mal entendido e que também estamos aqui.
Tom – Sim!!
Silêncio
Katherine – Mas então... por que ainda não vieram nos procurar?
Tom – Bom, talvez ainda não tenham percebido o mal entendido.
Katherine – Eu mato o Hartley!
Tom – Se Melinda apronta uma dessas comigo, eu nem sei!
Katherine – Temos que descobrir.
Tom – Bateremos em todas as portas deste motel.
Katherine – Acordaremos quem for preciso.
Tom – E se os pegarmos na cama, nós...
Katherine – (interrompendo) E se os pegarmos na cama?
Tom – Nós falaremos que também dormimos juntos!
Katherine – Que horror!!
Tom – Mentiremos a eles. Mas não vamos deixá-los pensar que fizeram isso sozinhos.
Katherine – Certo. Diremos que também fizemos.
Tom – Pronta?
Katherine – Prontíssima.
Eles vão em direção a porta. Tom coloca a mão na maçaneta.
Os dois respiram fundo.
Katherine – Ai, eu acho que eu não consigo.
Tom – Eu não suportaria ver uma cena dessas.
Katherine – O que faremos?
Tom – Chegaremos às vias de fato. Dormiremos juntos. Não vou deixar que Melinda faça uma coisa dessas comigo e passe impune.
Katherine – E nem eu permitiria que Hartley me apunhalasse pelas costas sem dar o troco.
Tom – Mas se eles não falarem nada, nós também não abriremos a matraca.
Katherine – Mas caso contrário...
Tom – Caso contrário eu nem sei!!!
Silêncio.
Katherine – Vou me despir.
Tom – Uma última coisa. Não tiraremos as máscaras.
Katherine – Em hipótese alguma.
Tom – Esse pode ser o nosso álibi.
Katherine – Dormiremos de máscara, faremos o que temos de fazer de máscara e acordaremos de máscara.
Tom – Isso se conseguirmos dormir depois de realizar tal pecado. De máscara.
Katherine – E quanto à reclamação que faríamos aos Dale...
Tom – Aquela conversa toda de denunciarmos um ao outro...
Katherine – De sermos vetados dos eventos sociais de New River...
Os dois – Bico calado.
Fade out.

Eles se encontraram na banca de jornal da esquina. Ela estava com desejo de comer chocolate há dois dias, mas não conseguia sair debaixo das cobertas pra ir comprar. Ele estava sem cigarro. “Trocou de marca?”, ela perguntou, vendo o Marlboro Light nas mãos dele. Ele respondeu que estava tentando substituir o filtro amarelo pelo branco, mas que no fim das contas devia dar na mesma, porque ele estava fumando o dobro. Fora a grana a mais que estava gastando.
Foram caminhando juntos, em silêncio, em direção ao começo da rua. “O que aconteceu com a velha do 306?”, ela falou, quebrando o gelo. “Do seu prédio ou do meu?”, ele quis saber. Era a velha que morava no prédio dele e que parecia colecionar pássaros, tinha pelo menos umas dez gaiolas na varanda. “Você não soube de nada? Ela sumiu por uma semana, uma moça ruiva alimentou os passarinhos – coitados! – enquanto ela estava fora. Pensei até que ela tivesse morrido. Mas na terça-feira ela voltou. Numa cadeira de rodas. Queria saber o que ela teve”. Ele não tinha a mínima idéia do que tinha acontecido com a velha. Aliás, nem sabia quem era.
“E o viado do 202, que fim levou?”, ele perguntou. “Do seu prédio ou do meu?”. O viado morava no prédio dela. Ela ficou horrorizada: “Ele é gay? Como você sabe?”. Simples. Nas festas que ele dava quase todo dia, nunca apareceu mulher. “Ah. Ele foi expulso do prédio. O pessoal não agüentava mais o barulho que vinha da casa dele”. Com razão, ele pensou, lembrando-se das vezes que ficou sem dormir por causa da música eletrônica nas alturas.
Ele contou pra ela que o casal que morava no quarto andar (“do meu ou do seu?”; “do seu”) brigava quase todo dia. “Um dia ela tacou um prato nele, que acabou quebrando a porta de vidro que dá pra varanda”. Ela ficou pensando em como as aparências enganam, “eles pareciam ser o casal perfeito”. Aí se lembrou de que o casal de São-Bernardo da executiva que morava no sexto, do prédio dele, acabou de ter uma ninhada de nove cachorrinhos. Ela passou horas na janela namorando os filhotinhos que mamavam nas tetas da mãe.
Chegaram na frente do prédio dela. “Bom, vou subir. Foi um prazer te conhecer. Ao vivo, eu digo”. Ele também gostou muito de vê-la de perto, sem a moldura da janela. E antes de ela sumir pela portaria, ele chamou. “Não vejo sua mãe regar as plantas faz tempo. Aconteceu alguma coisa?”. Ela disse que tinha pintado uma transferência no trabalho. Pra Israel. Mas só por um ano. Enquanto isso, ela estava morando sozinha. E se lembrou de comentar: “A sua namorada que sumiu”. Ele comunicou o término. Os dois ficaram se olhando por alguns segundos. Até ela tomar coragem: “No seu prédio ou no meu?”.
ele entrou em casa abriu a janela
e mirou os três astros – iguaizinhos
mandou o poema e a flor magricela
sem galho sem pétala sem espinhos
um beijo que nunca seria dado
mas se por acaso fosse roubado
seria excessivamente rimado
e quando ela topou ir prum motel
uma cidade inteira congelou:
a água o fogo a terra e até o céu
travaram junto com o computador
do brasileiro que mora em moscou
e quer transar pelo simulador
Quando a Lady Di morreu, as quatro senhoras se reuniram na frente da televisão. Não se falava em outra coisa, somente no acidente – terrível! Na sala da dona Lelena, contavam-se os minutos para o RJTV e, quando o apresentador dava boa noite, preparava-se um café pra esperar pelo Jornal Nacional. Na hora da novela: “muda o canal, Lelena, deve tá dando a Daiana no SBT”. Quando dava o plantão: “ai, meu deus do céu!” e um silêncio sepulcral. Que perda pra humanidade!
A Estela comentou que quando o Ayrton Senna morreu foi muito bonito. Todo mundo chorando diante dos enfeites do caixão. Gente rica tem essas mortes bonitas, observou a Filomena. A Diana, que não era Daiana e sim Diana mesmo, ficou com pena dos filhos da princesa. Daqui a pouco passa, Diana, daqui a pouco passa, consolava a Terezinha.
Os vizinhos que passavam por lá ficavam sabendo das novidades. “Diz que o motorista tava bêbado!”. “Um homem desses tem que ir pra cadeia!”. Tentaram explicar pra Estela que o motorista também tinha morrido no acidente. “Um homem desses tem que ir pro inferno”.
Durante o programa de fofoca que passava à tardinha, falaram que a princesa traía o príncipe Charles. “Sabia!”, disse a Terezinha. Mas a Estela e a Filomena acharam aquilo um absurdo. A discussão sobre o possível adultério durou até a hora do velório. “Quem é esse?”, quando apareceu o Elton John. Um gay cantando pra família real, “que é que você acha disso?!”.
Cada uma achou uma coisa, até que um dia a vida voltou ao normal. E quando a Diana morreu, de ataque cardíaco, as três senhoras se reuniram na frente do caixão. Mas ninguém falou nada.