segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Não Saiu na Revista Caras (ou) Poema tirado de "Poema tirado de uma notícia de jornal"

No caminho pra Angra dos Reis, o empresário João Maurício Araújo, 32,
tentou contactar sua empregada Shirley Silva, 38,
do alto do helicóptero do piloto Junior, 47,
e pedir a ela que desligasse o gás que ele havia esquecido ligado
no seu apartamento no Alto Leblon, Timóteo da Costa,
647,
mas a doméstica não escutou o toque do aparelho, cantado por Chitãozinho, 48,
e Xororó, 46,
pois estava com a boca no pau de Ademar Correia, 87,
bilionário e vizinho de João Maurício Araújo, 32,
e por isso não conseguiu alertar sua esposa, Priscilla Fontes, 23,
ex-modelo e fumante regular desde os 12,
e que teve seu celular furtado por Wellington Santos, 9,
na noite anterior, 3/12,
pra que não entrasse em casa com um cigarro aceso pois o gás poderia estar vazando e
já era tarde demais.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

LA FEMME FATALE

Era o ano de 96, mas podia ser o de 95 ou o de 92. Um daqueles anos que parece que foi ontem, mas se você fizer as contas, vai perceber que era muitos quilos mais magro ou alguma moda mais feio. Um ano que, se você olhar o calendário na gaveta, vai encontrar o papel completamente amarelado. Talvez se depare com uma propaganda de cigarro no verso do folheto. Quem sabe ganhou o calendário numa promoção, quando foi comprar uma caixa de Marlboro no supermercado – um daqueles últimos anos em que estocar cigarro não era pecado. Pelo contrário, era uma tradição cristã, passada de pai pra filho.

Num canto do bar, ela apoiava os seus cotovelos sob a mesa e pousava as duas mãos na mandíbula ossuda e forte. Por causa da força exercida pelas mãos, que empurravam o rosto, suas bochechas rechonchudas suprimiam os grandes olhos negros, quase os fechando por inteiro. O quadro era o de uma mulher entediada, um pouco feia, um pouco bonita, mas que ainda lutava pra se encaixar em qualquer um daqueles adjetivos.

A densa fumaça vinda da multidão de cigarros – às vezes parecia que havia mais cigarros acesos do que pessoas no ambiente – brincava livre no ar, como uma criança que faz desenhos fúnebres no papel e não é repreendida. De um cigarro, o mais depravado de todos os cigarros presentes, voou uma fina névoa que delineou ludicamente o personagem de O Grito, de Munch.

Inspirada pela perversidade de tanta fumaça, ou apenas de saco cheio da imagem em que estava enquadrada, ela moveu uma das mãos que apoiavam a mandíbula para debaixo da mesa e vasculhou a bolsa que repousava em seu colo. Apanhou um batom vermelho com o qual pintou os lábios grossos. Também soltou os cabelos, revelando as ondas que ocasionalmente se transformavam em cachos, que ela escondia com um coque. Levantou-se num estalo e ajeitou o vestido preto que mostrava grande parte dos seus seios. Tirou um cigarro da parte lateral de um dos seus grandes seios, e pediu fogo ao rapaz loiro sentado na mesa mais próxima dela.

Acendeu. Todo mundo tem isqueiro em 96, ou fósforo em 95.

Eu me chamo Brenda, ela se apresentou. (Não posso garantir se havia muitas Brendas em 94, mas é capaz de todo mundo ter se chamado Brenda em 93.) Ele atendia pelo nome de Carlos e os Carlos sempre existiram em qualquer década. Ele comentou que quase não se via nada em meio a tanta fumaça, e acendeu um cigarro também. Pois é, ela concordou, e resmungou que não fazia questão de enxergar nada naquela noite. O Carlos não entendeu, mas não disse a ela que não fazia questão de entender nada que nenhuma mulher dissesse, nem naquela noite, nem em noite nenhuma.

Quer sentar?, ele convidou, eu tô sozinho. Ela sentou, tanto fazia, já eram três da manhã e nada de novo tinha lhe acontecido. Não trocaram nenhuma palavra por dez minutos, ao contrário dos seus cigarros, que conversavam ininterruptamente, discutindo atrocidades a cada tragada.

Você tem os peitos grandes, o Carlos disse, depois de fazer um esforço e conseguir enxergar, em meio à nuvem branca, apenas o contorno dos seios da Brenda. Eu quase não uso, a Brenda confessou. O Carlos acendeu um outro cigarro – quando não se sabia o que falar em 92, ou quando não se queria dizer coisa nenhuma em 97, acendia-se um cigarro. Não é desse jeito que você pensou, é que eu quase não uso decote. Não gosto, me sinto desconfortável, ela ajeitou o vestido. Também quase não uso batom vermelho, você gosta? Ele tragou forte: Tanto faz. Ela respirou fundo o máximo de monóxido de carbono que cabia em seus pulmões.

Quer ir lá pra casa?, ele arriscou. Sim, eu saí de casa querendo transar, era exatamente isso que eu queria, ela pensou. Ela negou, acendendo outro cigarro, e a fumaça do primeiro trago dançou exuberante no ar, mais consistente, mais bonita, mais segura. Ele comentou que as mulheres bonitas que saem sozinhas à noite, no fundo, estão procurando alguém pra dar. E as feias? As feias só querem se sentir bonitas. Eu faço parte de que time? Das inseguras ou das carentes, ele concluiu.

Era bem verdade. Mais do que feia ou bonita, ela era insegura e estava carente. E ele era um machista metido à besta. Mas essa grosseria ela não falou, menos por não querer ofendê-lo, mais por achar que ele não ficaria ofendido com alguém lhe chamando de machista metido à besta – por mais que quisesse, ela nunca dominou a arte de humilhar alguém. Em vez disso, questionou: E os homens que saem sozinhos à noite? Estão procurando boceta, respondeu o oráculo. A vida ficaria muito simples com a objetividade e o pragmatismo de homens como o Carlos, ela filosofou, introspectiva.

Voltaram a ficar em silêncio. Acima deles, fios brancos se desgarravam dos cigarros, formando círculos deformados que gritavam em silêncio, a boca escancarada em direção ao infinito daquele teto rebaixado. Interagiam, libertinas, umas com as outras, num jogo de sensualidade que fazia você ter vontade de ser feito só de fumaça.

Você quer me comer?, ela soltou. Tanto faz, ele disse.

Ela soltou a fumaça pelo nariz.

Tanto faz... Tanto faz. Tanto. Faz. Tanto Faz. Tanto faz?

Ela perguntou: Como assim, tanto faz?. Tanto faz, ele repetiu. Ela não soube o que dizer.

Ele percebeu o estado de choque no qual ela se encontrava. E concluiu: Agora você não vai me dar mesmo. Ela confirmou. Sabe por que?, ele fez uma pergunta retórica, porque você veio aqui buscando um homem que te fizesse sentir a mulher mais especial do mundo, por mais que você tenha consciência de que ele não estará falando a verdade. Ela foi honesta: você tem razão. Bingo!, ele comemorou, e em 92 era tão cafona falar “bingo” em qualquer contexto que não fosse o do jogo como em 90 ou 2009.

As mulheres inseguras vão sempre existir, ele profetizou. E os caras arrogantes, babacas e com pau pequeno também. E mais uma vez ela não disse o que pensou, com o mesmo receio de não ofendê-lo. Em vez disso, tragou forte o Marlboro – era o que as mulheres, inseguras ou não, faziam em 93 depois de uma noite embaçada como aquela.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

sobretudo


que ousadia é
poetizar sobre o tudo
sobretudo
quando o poeta
está só de cueca


inspirado no livro "Breves Cantares de Nós Dois", de Filipe Couto.



quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O baile de máscaras na casa dos Dale

O cenário é a ante-sala de um quarto de motel americano mediano de beira de estrada. Uma penteadeira, um sofá e um cabideiro. Um casal, usando máscaras e roupa de festa, abre a porta. Eles não tiram as máscaras durante toda a cena.

Katherine – Há, há, há. Os Thompsom estavam ótimos com suas máscaras de cortinas venezianas.

Tom – E o que dizer dos Makintyre? Sempre tão bem humorados.

Katherine – Ano passado usaram máscaras de abelhas albinas.

Tom – E eu achava que eram tigres de bengala. Há, há, há.

Katherine – Há, há, há. Imagine só você que os Campbell mandaram bordar a fios de ouro as máscaras que usaram este ano.

Tom – Os Campbell sempre tão soberbos. Acabam caindo na vulgaridade.

Katherine – Concordo plenissimamente.

Tom – Ai, ai. Foi divertido. Tivemos um ótimo tempo.

Katherine – Otimíssimo. Ai, ai...

Silêncio. Eles mudam o tom.

Tom – Fora aquele casal estraga prazeres. Que vergonha nos fez passar.

Katherine – Nem me fale. Quando vi duas máscaras idênticas às nossas meu coração quis saltar pela boca.

Tom – Uma indelicadeza só.

Katherine – Onde já se viu? Freqüentamos o baile de máscara dos Dale há mais de vinte anos e nunca tal impropério havia nos acontecido.

Tom – Fomos alvo do desprezo de toda a festa.

Katherine – Com razão. Aquele outro casalzinho nos ridicularizou perante todos. Os Clarkson, veja você, fizeram um comentário maldosérrimo a respeito de nossa originalidade.

Tom – Sempre os Clarkson. Ainda não aprenderam que em boca fechada não entra mosca.

Katherine – O fato é: passamos vergonha esta noite. Amanhã telefonarei para a Senhora Dale exigindo explicações sobre este mal entendido.

Tom – Eu nunca vi isso. Confirmamos nossa presença com semanas de antecedência e deixamos registrada na lista do organizador a máscara que iríamos usar.

Katherine – E eles sempre nos garantiram que a lista de máscaras servia para que nenhum casal tivesse máscaras idênticas.

Tom – Estou louco para saber quem é essa gentinha. Nunca os tinha visto no baile dos Dale antes.

Katherine – Faremos com que eles sejam limados de qualquer lista de qualquer evento social em New River.

Tom – Eles aprenderão uma bela de uma lição.

Katherine – Eles terão o que merecem.

Tom – Amanhã, quando chegarmos em casa, resolveremos esse impasse. Essa história dos Dale fazerem festas na casa de campo da família sempre nos obriga a dormir num desses motéis pela estrada.

Katherine – A sorte é que este é de boa qualidade.

Tom – O bom é que temos a noite inteira sem as crianças para fazermos o que quisermos.

Katherine – Você sabe que, com essa história toda, eu perdi meu bom humor? E com o bom humor, foi-se também minha libido.

Tom – Não ligue pra isso, querida. Acabaremos com a vida destes impostores.

Katherine – Você tem razão, Hartley. Vamos tirar essas máscaras e ir pra cama.

Tom – O que você disse?

Katherine – Vamos tirar essas máscaras e ir pra cama.

Tom – Não. O que você disse antes disso?

Katherine – Eu disse: vamos pra cama, Hartley

Tom – Hartley?

Katherine – Sim, Hartley Junior. Não é assim que você gosta que eu lhe chame na intimidade?

Tom – Não. Eu gosto que você me chame de Tom, que é o meu nome, Melinda.

Katherine – Melinda? Mas meu nome é Katherine.

Climão.

Tom – Oh, não, Melinda. Digo, Katherine. Acho que uma tragédia se abateu sobre nós.

Katherine – Nós... Nós trocamos de pares!

Tom – Com o casal que estava usando a mesma máscara.

Katherine – Como pudemos?

Tom – Não sei. Eu poderia jurar que você era Melinda.

Katherine – E eu apostaria com a morte que você era o meu Tom.

Silêncio.

Katherine – Você não sabe a cara da sua mulher?

Tom – Claro que sei. Mas como você pode perceber, todos estávamos de máscaras.

Katherine – Mas e a voz, o cheiro...

Tom – Sim, claro que sei. Mas ela é tão parecida com você que eu acab... E você, falas de mim, mas não és capaz de reconhecer o cheiro de teu esposo.

Katherine – Eu perdi o olfato.

Tom – Oh, Deus. Que fato triste.

Katherine – Pra falar a verdade, não foi tão triste assim. Eu fiz uma operação pra tirar uma pedra no rim que me deixou essa seqüela. Mas não fez muita diferença, eu sempre tive uma rinite aguda que me bloqueava os cheiros.

Tom – O quê? Eu digo esta situação toda. É muito triste.

Katherine – Ah, sim. Tristíssima!!

Tom – Quer dizer então que a minha pequena Melinda está... com o seu marido...

Katherine – E o meu precioso Hartley está com a sua pequena Melinda...

Os dois – Filha da Puta!

Os dois – Epa!! Olha como você fala do meu...

Silêncio. Eles estão muito tensos.

Tom – (pegando um cigarro) Você tem isqueiro?

Katherine – Claro. (quebrando o gelo) Olha, você pode relaxar que o meu marido sabe muito bem a cara da mulher dele.

Tom – E se eles ainda estiverem com as máscaras?

Katherine – O olfato do Tom é perfeito. Ele é o único da casa que não sofre de rinite aguda.

Tom – E você pode ficar tranqüila que a minha mulher reconhece num piscar de olhos o maridinho dela. Diferente de você.

Katherine – Não sei, não. Se ela for igual ao maridinho, daqui a pouco está na cama com um desconhecido.

Tom – E este desconhecido será o teu esposo, minha senhora.

Katherine – Olha lá como você fala do meu marido. Espere só até eu ligar para os Dale e contar que você me trouxe para um motel e que o meu marido foi pra cam...

Tom – Espera. Você não pode espalhar uma coisa dessas. O que os Dale vão pensar de nós?

Katherine – E os Makyntire?

Tom – E quanto aos Thompsom?

Katherine – E os Clarkson, aqueles futriqueiros?

Tom – O que me diz dos York?

Katherine – E os Campbell?

Tom – Já imaginou se os Griffith ficam sabendo?

Tom – Meu deus!! E os Pereira??

Katherine – Você tem razão. Um desastre desses não pode cair na boca da alta sociedade de New River.

Tom – Temos de pensar em algo.

Katherine – Acabo de lembrar que eu e Hartley viríamos a este mesmo motel depois que a festa acabasse. Ele deve estar por aqui.

Tom – Claro! Eu e Melinda já havíamos planejado pernoitar aqui há semanas. Ela não pode estar em outro lugar.

Katherine – Então eles sabem do mal entendido e que também estamos aqui.

Tom – Sim!!

Silêncio

Katherine – Mas então... por que ainda não vieram nos procurar?

Tom – Bom, talvez ainda não tenham percebido o mal entendido.

Katherine – Eu mato o Hartley!

Tom – Se Melinda apronta uma dessas comigo, eu nem sei!

Katherine – Temos que descobrir.

Tom – Bateremos em todas as portas deste motel.

Katherine – Acordaremos quem for preciso.

Tom – E se os pegarmos na cama, nós...

Katherine – (interrompendo) E se os pegarmos na cama?

Tom – Nós falaremos que também dormimos juntos!

Katherine – Que horror!!

Tom – Mentiremos a eles. Mas não vamos deixá-los pensar que fizeram isso sozinhos.

Katherine – Certo. Diremos que também fizemos.

Tom – Pronta?

Katherine – Prontíssima.

Eles vão em direção a porta. Tom coloca a mão na maçaneta.

Os dois respiram fundo.

Katherine – Ai, eu acho que eu não consigo.

Tom – Eu não suportaria ver uma cena dessas.

Katherine – O que faremos?

Tom – Chegaremos às vias de fato. Dormiremos juntos. Não vou deixar que Melinda faça uma coisa dessas comigo e passe impune.

Katherine – E nem eu permitiria que Hartley me apunhalasse pelas costas sem dar o troco.

Tom – Mas se eles não falarem nada, nós também não abriremos a matraca.

Katherine – Mas caso contrário...

Tom – Caso contrário eu nem sei!!!

Silêncio.

Katherine – Vou me despir.

Tom – Uma última coisa. Não tiraremos as máscaras.

Katherine – Em hipótese alguma.

Tom – Esse pode ser o nosso álibi.

Katherine – Dormiremos de máscara, faremos o que temos de fazer de máscara e acordaremos de máscara.

Tom – Isso se conseguirmos dormir depois de realizar tal pecado. De máscara.

Katherine – E quanto à reclamação que faríamos aos Dale...

Tom – Aquela conversa toda de denunciarmos um ao outro...

Katherine – De sermos vetados dos eventos sociais de New River...

Os dois – Bico calado.

Fade out.

domingo, 20 de setembro de 2009

abgail 1974

abgail da rocha nasceu em petrópolis na metade
dos anos quarenta mudou-se pro rio vinte anos
depois cursou arquitetura e nunca quis exercer
o casamento foi com um diretor da souza cruz
estudou pintura a óleo até o dia em que faleceu
no início dos anos dois mil deixando ainda vivos
marido dois filhos e uma tela de natureza morta
pendurada no banheiro

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Rua Manoel Ferreira


Eles se encontraram na banca de jornal da esquina. Ela estava com desejo de comer chocolate há dois dias, mas não conseguia sair debaixo das cobertas pra ir comprar. Ele estava sem cigarro. “Trocou de marca?”, ela perguntou, vendo o Marlboro Light nas mãos dele. Ele respondeu que estava tentando substituir o filtro amarelo pelo branco, mas que no fim das contas devia dar na mesma, porque ele estava fumando o dobro. Fora a grana a mais que estava gastando.

Foram caminhando juntos, em silêncio, em direção ao começo da rua. “O que aconteceu com a velha do 306?”, ela falou, quebrando o gelo. “Do seu prédio ou do meu?”, ele quis saber. Era a velha que morava no prédio dele e que parecia colecionar pássaros, tinha pelo menos umas dez gaiolas na varanda. “Você não soube de nada? Ela sumiu por uma semana, uma moça ruiva alimentou os passarinhos – coitados! – enquanto ela estava fora. Pensei até que ela tivesse morrido. Mas na terça-feira ela voltou. Numa cadeira de rodas. Queria saber o que ela teve”. Ele não tinha a mínima idéia do que tinha acontecido com a velha. Aliás, nem sabia quem era.

“E o viado do 202, que fim levou?”, ele perguntou. “Do seu prédio ou do meu?”. O viado morava no prédio dela. Ela ficou horrorizada: “Ele é gay? Como você sabe?”. Simples. Nas festas que ele dava quase todo dia, nunca apareceu mulher. “Ah. Ele foi expulso do prédio. O pessoal não agüentava mais o barulho que vinha da casa dele”. Com razão, ele pensou, lembrando-se das vezes que ficou sem dormir por causa da música eletrônica nas alturas.

Ele contou pra ela que o casal que morava no quarto andar (“do meu ou do seu?”; “do seu”) brigava quase todo dia. “Um dia ela tacou um prato nele, que acabou quebrando a porta de vidro que dá pra varanda”. Ela ficou pensando em como as aparências enganam, “eles pareciam ser o casal perfeito”. Aí se lembrou de que o casal de São-Bernardo da executiva que morava no sexto, do prédio dele, acabou de ter uma ninhada de nove cachorrinhos. Ela passou horas na janela namorando os filhotinhos que mamavam nas tetas da mãe.

Chegaram na frente do prédio dela. “Bom, vou subir. Foi um prazer te conhecer. Ao vivo, eu digo”. Ele também gostou muito de vê-la de perto, sem a moldura da janela. E antes de ela sumir pela portaria, ele chamou. “Não vejo sua mãe regar as plantas faz tempo. Aconteceu alguma coisa?”. Ela disse que tinha pintado uma transferência no trabalho. Pra Israel. Mas só por um ano. Enquanto isso, ela estava morando sozinha. E se lembrou de comentar: “A sua namorada que sumiu”. Ele comunicou o término. Os dois ficaram se olhando por alguns segundos. Até ela tomar coragem: “No seu prédio ou no meu?”.


(pra júlia palermo e tomás frota)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

soneto da simulação

ele entrou em casa abriu a janela
e mirou os três astros – iguaizinhos
mandou o poema e a flor magricela
sem galho sem pétala sem espinhos

ele pediu de um jeito abreviado
um beijo que nunca seria dado
mas se por acaso fosse roubado
seria excessivamente rimado

e quando ela topou ir prum motel
uma cidade inteira congelou:
a água o fogo a terra e até o céu

travaram junto com o computador
do brasileiro que mora em moscou
e quer transar pelo simulador

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