domingo, 20 de setembro de 2009

abgail 1974

abgail da rocha nasceu em petrópolis na metade
dos anos quarenta mudou-se pro rio vinte anos
depois cursou arquitetura e nunca quis exercer
o casamento foi com um diretor da souza cruz
estudou pintura a óleo até o dia em que faleceu
no início dos anos dois mil deixando ainda vivos
marido dois filhos e uma tela de natureza morta
pendurada no banheiro

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Rua Manoel Ferreira


Eles se encontraram na banca de jornal da esquina. Ela estava com desejo de comer chocolate há dois dias, mas não conseguia sair debaixo das cobertas pra ir comprar. Ele estava sem cigarro. “Trocou de marca?”, ela perguntou, vendo o Marlboro Light nas mãos dele. Ele respondeu que estava tentando substituir o filtro amarelo pelo branco, mas que no fim das contas devia dar na mesma, porque ele estava fumando o dobro. Fora a grana a mais que estava gastando.

Foram caminhando juntos, em silêncio, em direção ao começo da rua. “O que aconteceu com a velha do 306?”, ela falou, quebrando o gelo. “Do seu prédio ou do meu?”, ele quis saber. Era a velha que morava no prédio dele e que parecia colecionar pássaros, tinha pelo menos umas dez gaiolas na varanda. “Você não soube de nada? Ela sumiu por uma semana, uma moça ruiva alimentou os passarinhos – coitados! – enquanto ela estava fora. Pensei até que ela tivesse morrido. Mas na terça-feira ela voltou. Numa cadeira de rodas. Queria saber o que ela teve”. Ele não tinha a mínima idéia do que tinha acontecido com a velha. Aliás, nem sabia quem era.

“E o viado do 202, que fim levou?”, ele perguntou. “Do seu prédio ou do meu?”. O viado morava no prédio dela. Ela ficou horrorizada: “Ele é gay? Como você sabe?”. Simples. Nas festas que ele dava quase todo dia, nunca apareceu mulher. “Ah. Ele foi expulso do prédio. O pessoal não agüentava mais o barulho que vinha da casa dele”. Com razão, ele pensou, lembrando-se das vezes que ficou sem dormir por causa da música eletrônica nas alturas.

Ele contou pra ela que o casal que morava no quarto andar (“do meu ou do seu?”; “do seu”) brigava quase todo dia. “Um dia ela tacou um prato nele, que acabou quebrando a porta de vidro que dá pra varanda”. Ela ficou pensando em como as aparências enganam, “eles pareciam ser o casal perfeito”. Aí se lembrou de que o casal de São-Bernardo da executiva que morava no sexto, do prédio dele, acabou de ter uma ninhada de nove cachorrinhos. Ela passou horas na janela namorando os filhotinhos que mamavam nas tetas da mãe.

Chegaram na frente do prédio dela. “Bom, vou subir. Foi um prazer te conhecer. Ao vivo, eu digo”. Ele também gostou muito de vê-la de perto, sem a moldura da janela. E antes de ela sumir pela portaria, ele chamou. “Não vejo sua mãe regar as plantas faz tempo. Aconteceu alguma coisa?”. Ela disse que tinha pintado uma transferência no trabalho. Pra Israel. Mas só por um ano. Enquanto isso, ela estava morando sozinha. E se lembrou de comentar: “A sua namorada que sumiu”. Ele comunicou o término. Os dois ficaram se olhando por alguns segundos. Até ela tomar coragem: “No seu prédio ou no meu?”.


(pra júlia palermo e tomás frota)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

soneto da simulação

ele entrou em casa abriu a janela
e mirou os três astros – iguaizinhos
mandou o poema e a flor magricela
sem galho sem pétala sem espinhos

ele pediu de um jeito abreviado
um beijo que nunca seria dado
mas se por acaso fosse roubado
seria excessivamente rimado

e quando ela topou ir prum motel
uma cidade inteira congelou:
a água o fogo a terra e até o céu

travaram junto com o computador
do brasileiro que mora em moscou
e quer transar pelo simulador

terça-feira, 28 de julho de 2009

Lady Di

Quando a Lady Di morreu, as quatro senhoras se reuniram na frente da televisão. Não se falava em outra coisa, somente no acidente – terrível! Na sala da dona Lelena, contavam-se os minutos para o RJTV e, quando o apresentador dava boa noite, preparava-se um café pra esperar pelo Jornal Nacional. Na hora da novela: “muda o canal, Lelena, deve tá dando a Daiana no SBT”. Quando dava o plantão: “ai, meu deus do céu!” e um silêncio sepulcral. Que perda pra humanidade!

A Estela comentou que quando o Ayrton Senna morreu foi muito bonito. Todo mundo chorando diante dos enfeites do caixão. Gente rica tem essas mortes bonitas, observou a Filomena. A Diana, que não era Daiana e sim Diana mesmo, ficou com pena dos filhos da princesa. Daqui a pouco passa, Diana, daqui a pouco passa, consolava a Terezinha.

Os vizinhos que passavam por lá ficavam sabendo das novidades. “Diz que o motorista tava bêbado!”. “Um homem desses tem que ir pra cadeia!”. Tentaram explicar pra Estela que o motorista também tinha morrido no acidente. “Um homem desses tem que ir pro inferno”.

Durante o programa de fofoca que passava à tardinha, falaram que a princesa traía o príncipe Charles. “Sabia!”, disse a Terezinha. Mas a Estela e a Filomena acharam aquilo um absurdo. A discussão sobre o possível adultério durou até a hora do velório. “Quem é esse?”, quando apareceu o Elton John. Um gay cantando pra família real, “que é que você acha disso?!”.

Cada uma achou uma coisa, até que um dia a vida voltou ao normal. E quando a Diana morreu, de ataque cardíaco, as três senhoras se reuniram na frente do caixão. Mas ninguém falou nada.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

plano maligno

o doutor pablo rubión ajuda o apresentador
do telejornal a enviar para todas as casas do
brasil via rede globo o vírus da gripe suína para
gerar o caos no país para que os hospitais não
tenham leitos suficientes e o remédio também
não vai ser suficiente e os cemitérios finalmente
não vão ser suficientes nem os coveiros se ainda
houver coveiros e aí o ibope não vai ser suficiente
graças a deus umas férias na argentina

quarta-feira, 15 de julho de 2009

FOTOGRAFIA

tem sempre aquela parte da família
da gente que parou bem no instante
em que bateram a foto da filha
do avô de todos na sala durante

o natal na casa da avó em volta
redonda e que ficou empoeirada
lotada de meleca que não solta
da boca da tia que dá risada:

– essa vai ficar pra posteridade!
e fica todo mundo congelado
na imagem de alta sensibilidade

mas pouca profundidade não ia
revelar que o joão – lá, desfocado
no fundo, dava pinta de maria


segunda-feira, 6 de julho de 2009

meu avô

eu sempre tive a certeza de que o meu avô iria morrer dormindo a sesta, lá na rede da varanda, depois de comer três pedaços da broa quentinha que a minha avó fez pra hora do lanche.

mas o meu avô (que tinha problema de coluna) nunca dormiu em rede, não gostava de broa e, por isso, morreu numa cama de hospital, depois de passar sete dias na UTI.

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